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Quarta-feira, Maio 07, 2008

Aprende-se a viver com isto. Como um defeito de nascença, uma doença crónica, uma carência vitamínica ou um incómodo sazonal (um pé boto, um lábio leporino, uma febre dos fenos). Aprende-se, como uma erupção cutânea, a vista cansada ou um ataque de asma. Ou como a minha avó, que um dia me disse ter vivido grande parte da vida com o fantasma mudo de um frade franciscano no seu metro quadrado: ela andava, ele andava. E como isto lhe fazia impressão quando estava com o meu avô, não pelo meu avô mas pelo frade, que nessas alturas lhe parecia aflito, sem sítio para onde fugir nem parede para a qual se virar, obrigado aos roçares pudentes das flanelas vestidas, na cama dona maria. Aprende-se a viver com isto, e a desvalorizar os encontros, as coincidências (nas datas, nos sítios, nos nomes) e os sinais premonitórios, como a forma de algumas nuvens no céu e certos desenhos que surgem do trilho deixado pelo voo tardio das aves. Aprende-se a relevar, o amor que imaginámos na rapidez de um olhar, o embaraço que pressentimos num modo de andar ou o constrangimento que quiséramos por conta de um desejo violento. E a achar normal e previsível que o telefone não toque, as notícias não cheguem e que a vida continue apesar de. Aprende-se a viver com isto, com o teu ectoplasma quase colado à minha pele, sem teres para onde fugir nem parede para a qual te virares, quando dispo as minhas flanelas e entro na noite de rompão, fingindo que não é para ti que fico nua no escuro.




(brief encounter)

Segunda-feira, Abril 28, 2008

Por fim, dormimos em casas separadas mas, afinal, não se me multiplicou o espaço nem o ar que respiro: apenas se nos complicou a logística. Queria tanto para mim, este tempo todo, tendido como massa fresca na mesa da sala alugada, este livro. Mas tu insistes em aparecer por entre as letras, numa dança triste, e eu distraio-me. Sinto falta de quando sorvia parágrafos onde calhasse, num prazer clandestino, antes que alguém desse conta. Queria talvez telefonar-te e ouvir a tua voz, não porque te tenha saudades, mas só para te saber real e não apenas um projecto falhado. Costumava ansiar por uma refeição em paz, que pudesse atravessar num ruminar mudo, mas agora que ninguém me interrompe, levanto-me, sento-me, vou à janela, e o jantar congelado seca nas bordas do prato. Preciso de procurar o silêncio com a urgência de alguém que perdeu as chaves e está atrasado, e não de dar com ele, assim, em cada esquina. Não durmo, porque me falta o embalo ruidoso do teu septo nasal desviado; e esta música, francamente, nem me apetece, porque não abafa as vozes nem os gritos, porque não me aliena de ti. Havia um certo conforto em te saber ali postado, sempre pronto: era como enroscar-me num sofá velho que tem o meu cheiro de tanto uso, só porque não há mais nada. A tua falta é como estar sentada num banco de pregos a meio de um campo e gozar de uma liberdade dolorosa. Na verdade, ainda não senti o alívio que imaginei: em vez de expirar profundamente à espera de uma ressureição qualquer, dou por mim a arfar baixinho como um cão, a oxigenar-me com cuidado e à superfície, a ver se me aguento nas canetas. Aqui chegada, e não me encontro disponível, o que me soa a desperdício ou, então, a grande ironia. Às vezes, sinto-me forte, capaz de enfrentar o mundo nesta minha nova condição de amputada; outras, em especial quando a noite cai demasiado depressa, cedo ao pânico, como se num elevador parado entre andares. Nessas alturas, enrosco-me como um feto e só quero agarrar-me à barriga das tuas pernas e pedir-te que seja ainda a semana passada, quando chegavas a casa calado e o pior que acontecia era o tédio correr-nos nas veias. Há momentos em que dava tudo para que os teus pés frios, que sempre me desagradaram, arrefecessem este medo que me tolhe.



(domicile conjugal)

Terça-feira, Abril 22, 2008

Foi ela, que eu sei (foi ela). Que te lançou feitiços e macumbas, milongas e mandingas, com os amuletos e talismãs que enrodilha no pescoço, as rezas ao pai de santo e os serviços encomendados. Foi ela, que se banhou em águas turvas, segregou fluidos biliosos e depois tos deu a beber, entrada à força dentro de ti, coitado, que não tens culpa (que não sabes o que fazes). É certo que andávamos a despistar o branco das paredes da casa com o negro do nosso silêncio, como polvos assustados, mas foi ela e não tu, com as suas saias curtas, os trejeitos ordinários e aquelas raízes escuras que fogem ao descolorante barato, blonde claire número oito (que eu sei). Pois se até nem estávamos mal, tu à larga na cama vazia, eu à vontade no sofá da sala; pois se até te sentias mais livre, instalado no meu desinteresse pelas tuas passeatas tardias; e se eu, aliviada, por já nem dares pela gula do Carlos debruçada no meu decote quando cá vinha ver a bola. Foi ela, que te tirou do sério e te virou do avesso, que quase renegas os teus filhos. Tu que nunca lhes faltaste com nada, embora de dia fosse o trabalho e à noite, o computador; embora aos sábados de manhã, o ginásio, à tarde, os beberetes, e aos domingos, o futebol. E agora, o tribunal, os descontos no vencimento, a nossa casa em nome dela, que eu sei (foi ela). Que te viciou no seu sexo tépido perfumado de temperos exóticos, coitado, que não tens culpa, do prazer a que ela te obriga, do gozo que à força te impõe. Ela a zoar-te aos ouvidos rezas e encantamentos, a ensaiar nas tuas costas sacrifícios e sortilégios, a coser-te a boca com o veneno de promessas e os seus beijos peçonhentos. Ela, que te deixou indiferente a esta dor de silício que se me crava na carne e que, com um vudu de muitas loas, fez de ti um morto-vivo e parou esse coração que dantes batia por mim. E eu, que nem acredito nessas coisas, que sou de estudos e não de crenças, racionalista positivista epistemológica matemática; eu que passo por baixo de escadas, que durmo com gatos pretos e me vejo partida nos espelhos partidos, sei que foi ela e não tu (coitado), que não tens culpa (coitado), que não sabes o que fazes.



(the witches of eastwick)

Sexta-feira, Abril 11, 2008

Ligas-me, e eu não acredito, deve ser engano, as linhas que se trocaram, o teu dedo que escorregou para o meu contacto já esquecido. Ligas-me, e eu penso que não, que não vou atender, que devo estar a ver mal, que só podes estar a brincar, que é primeiro de abril, dia das bruxas, a sentir-me tola, idiota paralisada, emparedada no tom de toque, à espera que desistas, que percebas o erro e que o telefone se cale. Ligas-me, e eu a olhar para o nada, pasmada, transida, está nos apanhados. Ligas-me, e eu a cismar no que poderás crer: um livro teu que ficou na estante, um cedê enfiado na aparelhagem da sala, umas calças perdidas no cesto da roupa, um relógio escondido na gaveta da cómoda (uns beijos teus no meu corpo, guardados, esquecidos, vestidos de pó), uma assinatura necessária num papel oficial. Ligas-me, dever-te-ei dinheiro?, dever-me-ás desculpas?; se calhar vais casar, ter um filho (vais ter gémeos); quem sabe um acidente, alguém que morreu, um escândalo, uma revolução, um cataclismo atómico à escala mundial. Ligas-me, e eu a pensar que apostaste com um amigo que eu atenderia logo, que assim empatas o tédio, que sorris com maldade para outra, deitada ao teu lado, enquanto enches o peito fútil à espera que eu atenda e fale, a parva, vais ver. Ligas-me, e eu por segundos imagino a conversa e treino a compostura, recolho um soluço que me empata o ar, carrego um canino sobre o lábio inferior, quase sangro nem noto, e fecho a boca para que por ela não me saia, disparado, o coração aflito. Ligas-me, e eu não atendo, poupo-te ao embaraço e ao inferno das explicações, aos olás de circunstância, deixo que toques e toques e que vás por fim parar às mensagens. Ligas-me, e eu espero, desejo e espero, que despejes para um gravador o teu erro, o teu tédio, o teu gozo, os pedidos, as desculpas, as incríveis novidades do mundo ou, quem sabe, a precisão dos beijos empoeirados que esqueceste e deixaste em mim.



(of human bondage)

Quarta-feira, Março 19, 2008

volver

Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

(por agora)

FIM

Vou-me embora, mas mantêm-se os disclaimers, os direitos de autor e as condições de reprodução destes textos em casas alheias: este blogue acaba aqui, mas nem por isso é letra morta. Quem me conhece de outras paragens sabe por onde ando. Quem não sabe mas estiver interessado em saber, é favor usar o mail que eu digo. Muito obrigada a todos por me lerem e por todas as mensagens que recebi, algumas até comoventes. Fico com a sensação de que, de certa maneira, mexi com a vida de muita gente, o que é bom e, ao mesmo tempo, um bocadinho assustador. Que se gastem estas palavras de tanto serem lidas, é o que desejo (e que para alguém hão-de ser verdade).


Sofia Vieira


Terça-feira, Janeiro 29, 2008

Iluminas-me. Emana de ti um calor que me cose o frio na barriga, quando te vejo ao longe e me rasgas o sorriso com uma precisão de bisturi. Então, refinam-se-me os sentidos e fico acutilante e desperta, a dar pelo cheiro a detergente nos umbrais, pelo brilho azulado da passadeira pintada de fresco, pelo vento aprisionado no redondo da praça e até por um milhafre perdido, que se debruça nas nuvens a tentar decifrar as copas nuas das árvores, os pespontos nos passeios, os fechos de correr das ruas. E o dia corre melhor. Gosto de te ter assim, como um sorvo rápido no intervalo dos dias ou a cigarrilha que te desaparece na boca enquanto me ouves ou finges: cabes-me na exacta medida desses poucos esplêndidos minutos. E gosto do à-vontade com que vês a minha vergonha dissolver-se lentamente no teu café. És promessa de escrita e o voo assarapantado das palavras dentro de mim, e só por isso valerias a pena. Às vezes, quando quase te pediria que ficasses, apetece-me guiar-te como se uma estrada secundária num princípio de Primavera e percorrer devagar as curvas do teu nariz que nunca cresceu. Há em ti um arremedo de tristeza que aposto se manifesta no escuro quando mais ninguém vê e que acrescenta em mim a vontade de te fazer festas e de te segredar intolerâncias ao ouvido, antes que descruzes as pernas, dobres o jornal e vás à tua vida. Iluminas, rasgas, aqueces, refinas, prometes, dissolves: um degrau lavado, uma lista branca, uma praça fechada sobre nós, a rapina de um bater de asas, uns minutos delicados, um passeio pelo teu corpo enquanto me mexes com a colher contra as paredes da tua chávena. E o dia corre melhor.



(pas sur la bouche)

Quarta-feira, Janeiro 16, 2008

Nada mudou. Continuas a aldrabar-me: está na tua natureza; continuo a desconfiar de ti: está na minha. Nada em nós é verdadeiro, excepto o facto de dormirmos costas com costas e de, mesmo assim, eu afinar o ouvido na tua direcção à espera de uma evidência que me leve a odiar-te legitimamente. À noite, descortino as sílabas de outros nomes nos silvos do teu ressonar; de dia, penso de quem será a mensagem que recebeste e porque razão não me atendes às três da tarde, quando o resto da cidade fervilha de disponibilidade e trabalho. Os nossos fins-de-semana estendem-se para além da vista como uma paisagem deserta e até o fosso da labuta diária é melhor do que as línguas de silêncio que nos lambuzam os domingos. Em cada gesto teu antevejo fuga e memórias protegidas por palavras passe de muitos dígitos e caracteres, nas quais te enrolas e reconfortas. Compenso a humilhação que é espreitar-te o fuso dos dias com o orgulho de não deixar que me toques, que sequer te aproximes: serás de outra, não sendo meu. Invento que esta altivez é o teu castigo, mas desconfio que seja antes o teu alívio. Continuo a ver, nas manifestações do teu corpo, provas irrefutáveis de desamor e de desconforto, como se a tua falta de apetite fosse mais do que o simples marinar de uma gripe, ou o teu balbuciar engasgado, quando acordas de repente, não resultasse da sinusite que te entope a cada inverno. Persistes em achar que o amor nada tem a ver com sexo e eu, que o facto de assim pensares mata o amor, fazendo-me recusar-te o sexo. É tamanho o vazio, que a mais breve discussão insufla o nosso quarto de uma espécie de paixão, de reconhecimento mútuo, de vivacidade inesperada, como se a sinergia súbita entre dois seres que habitualmente se ignoram pudesse delinear entre ambos um carreiro de afectos. Somos dois egos letárgicos que se acomodaram ao convívio mútuo: tu, com os meus cremes e desconfianças espalhados pelo lavatório; eu, com as tuas toalhas e aldrabices espalhadas pelo chão. Nada mudou.




(5x2)

Sexta-feira, Janeiro 04, 2008

Contigo, tenho dias. Dias, em que a habitual indiferença quanto às andanças do teu destino dá lugar a uma precisão urgente, como uma sede de náufrago ou um desejo de grávida. Tenho dias, contigo. Em que és o Sexo e a Palavra, o sítio onde trabalho, a casa onde vivo, o ar que respiro. Em que és o ronronar abafado da máquina do café, o correr da chuva no algeroz do prédio, a humidade esconsa da minha rua, reflectida no macadame. Pequenas coisas te despoletam, pode ser o cheiro de outro homem, a declinação de um som ou o teu nome abreviado nos contactos do telemóvel. Pequenas coisas, mas nem por isso aprendi ainda a identificar os sinais: quando me chegas, já vou tarde. E então fico quieta, à espera, enquanto passas por mim, ocioso, como um domingo, um passeio dos tristes, uma ida às queijadas ou ao hipermercado. Contigo, tenho dias.




(coeurs)

Quarta-feira, Janeiro 02, 2008

As passas engelhadas no côncavo da minha mão, e todos os desejos se concentram na tua ausência, tridimensional e luminosa como um cristo dos chineses. Percebo o chocalho alegre dos que mais amo, alheia, enquanto tu me acotovelas o coração, ultrapassando-os à má fila e sem vergonha, um esfomeado na fila para o pão. Amontoo os frutos secos num recanto vago da boca, do qual afasto a língua, levemente enjoada. O primeiro desejo é o de que baixes a guarda, para que eu te faça meu prisioneiro de guerra, após o que te obrigarei a derrubares todas as pontes entre nós, como naquele filme do assobio. O outro, o terceiro ou quarto, nem sei (como se não fossem todos o mesmo) é o de que não me esqueças, não me esqueças, e também, sim, pois claro, que eu tenha muita saúde e boa forma, para te amar num corrupio atlético noite dentro, quando o momento chegar. E dinheiro, também, para comprar rejuvenescimentos, penteados, sapatos que me ponham alta e roupa reduzida que te fará derrapar quando travares a fundo nos meus decotes (porque há sempre uma esquina onde nos poderemos cruzar, quem sabe, sexto, sétimo desejo). Com uma bochecha de esquilo guloso, esgotados os abraços, o recanto da boca, o delírio e o espumante no copo, fecho os olhos e peço noção, meu deus!, um bocadinho de noção do decoro, de bom-senso, do real. Porque esta estranheza que sinto por ti me tornou fútil, levitante, vácua e inconsequente. Previsível. E sem um outro objectivo que não o de chamar a tua atenção onde calha: aqui, ali; esperando-te à saída do trabalho, domando a boca para que não se me abra sobre as tuas rugas cansadas; ou rasando de manhã a casa onde vives, como uma gaivota fugida ao mau tempo; ou então fotossintética, alimentando-me do fio de luz que escorre pela frincha da janela do teu quarto, por onde te vigio com o desvelo das noivas nuas na cama.





(la bonne année)

Quarta-feira, Dezembro 19, 2007

Ficas com eles na consoada. Que não abusem dos doces, nem da vontade de ti, nem dos mimos dos outros. Atenta-te neles e agasalha-os bem. Cuidado com o frio, com as esquinas dos móveis, o açúcar nos dentes e as saudades de mim (que sei que vão ter). Aconchega-os na cama e deixa-lhes acesa uma luz de presença como se fora eu, vítrea rosa, analgésica, a iluminar-lhes o caminho alteroso dos sonhos e a aplacar-lhes as dores que às vezes se encaracolam nos seus corações em repouso. Porque a noite tem garras e toma amiúde formas de assombro, e eles bem conhecem os caminhos da decepção. Enquanto o tempo fizer que passa, irei ao meus pais. Dar-lhes um beijo, provar a secura do peru que a minha mãe assou para mim e que repousará inteiro na mesa no dia seguinte, como um cadáver frio: os restos mortais de nós. Depois, um comprimido e uns copos, um brinde sozinho ao nada em nenhures e esqueço-me da vida até de manhã, quando eles chegarem. Traz-mos cedo, lavados e penteados. A ele, desenha-lhe o risco com jeitinho, baldeado para a esquerda; a ela, prende-lhe os totós ao de leve e deixa-lhe o elástico largo, como se uma mão de mãe lhe sustivesse no ar os cabelos de fada. Na mala, o boletim de saúde e uns benurons, que isto nunca se sabe, andam vírus à solta. Ai de ti se me ficam doentes: serás sempre o culpado, o culpado de tudo (do peru, tão seco; da noite deles, tão escura; da minha sombra, tão frágil; da curvatura triste dos meus pais, até). E não te atrevas a conquistá-los com a última consola ou a maravilhosa boneca robótica: o amor extemporâneo não recolhe frutos. E se os vires felizes, nem por isso acredites: não será certamente do aconchego da lareira ou do carinho empenhado dos avós; nem, muito menos, do teu abraço grande, redentor e ampliforme. Fui eu que os eduquei, sabes?, para o exercício da benevolência subtil e da polidez agradecida, que todos devemos aos estranhos que nos são de repente agradáveis.



(the squid and the whale)

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

É Natal, e tu não estás. Dos cânticos que ecoam pelas ruas engalanadas, desprende-se uma melancolia que me embala e aconchega os passos. Aperto melhor o cachecol e agasalho-te contra mim. Rasando as montras, imagino os presentes que te compraria se aqui estivesses: esta caneta, para que assinasses o sim, quero, ou aquele relógio, para que nunca te atrasasses quando viesses ao meu encontro. Entro numa papelaria e pego num cartão de boas festas, daqueles pirosos e estridentes, com azevinhos garridos e os votos escritos em relevo, numa letra encaracolada de copista, fina e pretensiosa. Imagino-me a desejar-te mundos e fundos e tu, a afugentares o fantasma dos natais futuros com um sorriso de agraciado, quando o lesses. Prevejo como, de seguida, me agarrarias a nuca e a cintura por detrás, debruçando-me sobre o tampo por estrear da mesa marmoreada, levantando-me o avental e baixando tudo o resto. E de como o açúcar ao lume se agarraria para sempre às paredes do tacho, inutilizando-o, as minhas mãos espalmando-se de gozo contra o azulejo recém-colocado, o ainda cheiro a betume nas nossas narinas coladas. Uma falha na calçada faz-me frente súbita e um velho de trinta anos, sem dentes nem alma à vista, espreita-me de relance o voo, absorto na contagem de algumas moedas pretas. Componho os ossos em sobressalto e largo-lhe na mão suja o troco do cartão piroso, que inclui um envelope de fímbria dourada, olha que sorte. Do outro lado da cidade, na cozinha renovada, repousam silenciosos os utensílios do Amor. É Natal, e tu não estás.



(could mountain)

Quarta-feira, Novembro 28, 2007

Parece que este blogue,
deu um programa de rádio.




(radio days)
Sabes que é só quereres. Que, entre os silêncios e as palavras meias, basta uma destas, calibrada para a rendição e o assentimento. Que é mais do que suficiente, o exagerares o riso ou o alargares o passo na minha direcção. Uma carta à maneira antiga empertigada num selo; um telefonema, uma mensagem abreviada em que os polegares se te fugiram e foste longe de mais. Sabes que me chega e sobra, um abraço que evites apertado ou um beijo na cara a resvalar para a boca, embalando-me os sentidos atentos com promessas cumpríveis. É só quereres, e eu caio-te nos braços com amplitude teatral, deixando que me dissolvas a pele com a língua e que a tua vontade impere por fim em mim numa fúria totalitária, mas doce. Sabes que uma palavra, apenas, me serve, ainda que desgarrada, truncada, encriptada e incorrecta; ou mesmo fugitiva e vagabunda, solta num grito de alforria. Espero um dia ser um alegre capricho teu e o objecto da tua preferência irresponsável, sujeita a critérios desmedidos. O meu desejo é circular e redundante: acaba sempre por voltar a casa e tem saudades, como um soldado ferido. É só quereres, e deixarei que me confundas com o rebentar das ondas e que contabilizes e anotes, com astúcia de merceeiro e intuitos de salva-vidas, os rodopios do meu corpo em despejo sobre o teu. Eu, vinda e ida na sétima, às vezes na quadragésima, encharcando-te, desprevenido. É só quereres (sabes). E eu quero que tu o queiras (sabê-lo-ás?).




(eros, the hand)

Quarta-feira, Novembro 21, 2007

Não, não acabou. Gostava que tivesse acabado; gostava de ter lavado de ti as minhas mãos e ponto final parágrafo, mas dou por mim aqui, neste sítio contigo dissimulado dentro, como uma arma com disfarce regateada na feira, das que nem parece que magoam. Pestanejo e cá estou, jazente e escondida, no único lugar onde sei que te tenho; onde já te amei tantas vezes que enjoei o salitre do teu corpo; e onde exorcizo a minha banal existência, exagerando-te e ampliando-nos. É por isto que preciso de continuar a querer-te com a desmesura com que se quer nos filmes mudos, e a escrever o arrebate das tragédias a preto e branco, com grandes planos que são grandes demais e gestos de amor abruptos, como saltos de insecto ou cortes inesperados na fita. É aqui que te esqueço e repudio e me apaixono por ti uma e outra vez, e onde às vezes mais não és do que uma lembrança antiga, desbotada como um linho de avó, que me inspira ao tacto. Aqui, prometo-te a eternidade adiada, enquanto fazemos amor e as contas do IRS, enquanto conferimos os dedos um do outro, as brancas no cabelo e a lista do supermercado. Aqui, deixamos o telefone tocar e a porta bater, e eu engulo todos os sons que não sejam o das nossas respirações em dueto. E esqueço-me de quem sou, querendo-te para o resto da vida e mais um dia, e dizendo-to avidamente à sombra da prateleira dos enlatados. Por isso, não, não acabou: estarei condenada, parece, a voltar aqui, a voltar a ti. Tal como tu, condenado a leres-me, a leres-me sempre, num impulso alcoviteiro e a uma distância sem remédio.




(the marrying man)

Quarta-feira, Novembro 14, 2007

Sábado, Novembro 10, 2007

Olá. Tenho saudades. Hoje lembrei-me de ti, não tenho feito outra coisa imagino porquê. Que tal almoçarmos agora um dia destes? Apetece-me corromper-te com beijos conversar contigo. Lanchar, se te der mais jeito e desvirginar o teu silêncio com a minha língua ouvir-te falar. Preciso de saber que ainda me queres o que tens andado a ler. Já nem sei o que te costumava dizer, mas ainda soletro de cor as palavras com que me vestiste que não seja por isso: o exercício do amor da amizade é como andar de bicicleta. Sei que tens muito trabalho quero lá saber e que mal te lembras de mim atreve-te a esquecer-me. Mas, para um amor amigo, arranjamos sempre um bocadinho. Uma vida hora, é só o que te peço. Naquele hotel da baixa, o que tem o quarto a esplanada de frente para o rio, lembras-te? Em não podendo ser, morro deixa estar. Talvez para a próxima reencarnação. Fica mal e apodrece sem mim bem. Um beijinho à estúpida da tua mulher e outro aos teus fedelhos miúdos. O meu resiliente marido manda-te à merda cumprimentos e pergunta quando sais de vez da nossa cama aparecem. A ver se combinamos um churrasco de domingo com todos eles de preferência bem longe noutra mesa. Até jádeus.



(el otro lado de la cama)

Sábado, Novembro 03, 2007


Amei-te, mas nunca te amei, e este desconhecimento bíblico enredou-me numa linha invisível que me emaranha o futuro, penhorado nesta vontade incumprida que, volta e meia, me atiça os sentidos. Precisava que a realidade do teu corpo nu, em toda a sua incompetente fragilidade, me tivesse esmorecido estes desasados quebrantos românticos e a ideia peregrina de que dois podem ser um só, enquanto pássaros de cetins no bico atravessam corações rosa suspensos no ar. Precisava de ter constatado que o que te excita, me enoja e entedia. Que te tivesses atrapalhado no acto, mostrado incapaz de malabarismos e desajeitado nas cambalhotas; que tivesses confundido as coordenadas, traçado mal o azimute e acertado ao lado. Precisava de ter reparado, desagradada, nos pêlos do teu nariz, na barriga saída, nos cotovelos gretados, no dente cariado. Era fundamental, que te tivesses satisfeito sozinho e à missionário e eu, a imaginar como sair rapidamente de debaixo de ti. E que a culpa se tivesse sobreposto a qualquer lamiré de gozo, de modo a que eu tivesse tido vontade de recuperar o juízo e as cuecas do meio da nossa roupa, seguramente lançada para o chão com a urgência dos deuses. Precisava de não ter gostado de ti e de ter constatado, sem sombra para dúvidas, que não prestas por aí além, para poder largar de vez a ideia de que um dia terei de o confirmar, empiricamente e por escrito. Quando as coisas não acontecem, o vazio torna-se o espaço mais ocupado da sala onde estamos, trazendo consigo os prenúncios de uma implosão anunciada.




(cyrano)

Quinta-feira, Outubro 18, 2007

Tinhas de arranjar maneira. De me fazeres começar o dia baldeando-me de novo para os teus lados. Maneira, de me pores a espreitar pelo retrovisor, a vasculhar as ruas, a medir o perfil de quem pára ao meu lado no sinal. De me fazeres faroleira, a apontar para o mar de carros que engole a cidade a cada manhã embaciada, vasculhando marcas, modelos, matrículas, sinais de alerta. Tinhas, de me levares a controlar este, o outro, quem sabe aquele ali que dobra apressado os cantos da esquina e rasa a velhota que, pendurada num saco de xadrez por onde espreita uma couve portuguesa, se atreve à passadeira. De arranjar maneira, enquanto sorvo o galão a escaldar cuspindo vitupérios (estúpido, pedi morno), trinco a torrada do meio ou começo a ler o jornal, do fim para o princípio (nunca leio o mais importante). De seres este homem à minha frente, de ombros magros alteados pelos chumaços do casaco, como se dissesse que não sabe, que não se importa, com um traseiro triste que mal enche as calças e umas mãos de aranha que não têm lugar vago nos esconderijos do corpo, nervoso, miudinho. Tinhas de arranjar maneira, de me dares o troco na banca dos jornais, enquanto me espreitas por detrás de notícias sobre meninas desaparecidas, ditaduras que oprimem e ditadores que enlouquecem. Maneira, de seres todos e nenhum. De voltares à minha vida, arranjada, ordenada, cronologicamente serena, perfeitamente editada como um bom filme dos óscares (voltaste à minha vida). Agora, arranja maneira, diz que sonhei, que estou a inventar.



(rebecca)

Terça-feira, Outubro 16, 2007

Não se pode dizer que tenhas estado sempre perto, à mão de semear, ao virar da esquina, mas finalmente encontrei-te. Não que te procurasse: foste-me tão natural como o vizinho da porta ao lado quando se cruza comigo no corredor e pigarreia, medindo-me a barriga das pernas, trémulas de subir as escadas. Atravessámo-nos um no outro com a inevitabilidade de dois troncos à deriva e represámo-nos alegremente: o entulho ficou para trás. Não me salvaste a vida, que até estava bem obrigada, mas tens essa distinta qualidade de me saberes, o que te cai na perfeição, como uma camisa de marca ou um casaco novo. Não romanceamos o presente porque nós somos o presente: partilhamos uma cama, um cigarro, um futuro e temos o pragmatismo das causas ganhas, o que, parecendo que não, alivia. Somos velhos amigos, companheiros de guerra e brincamos muito, porque temos alguma pressa: enquanto equilibramos orgasmos na ponta do nariz, fazemos a toca e construímos o ninho. Mas o mal de tanta beleza junta é que nunca nos habituamos à ausência, esse buraco no peito, de rebordos cauterizados, onde cabe um punho fechado. E, agora, o teu cheiro agarrou-se às minhas coisas como uma película fina de pó e eu não quero a empregada cá em casa, não vá ela, sei lá, sempre tão pressurosa. A melhor maneira de afastar o diabo é ir brincando à felicidade dentro destas quatro paredes, quem está livre livre está. É um facto que tudo era bem mais fácil quando apenas te adivinhava; hoje, mal reconheço os cantos à casa e, quando partires, tenho a certeza de que mudarei de côr como um polvo acossado. Folgo em saber, no entanto, que não nos somos fundamentais: afinal, toda a gente vive sem um braço, só é chato para os trocos.





(blade runner)

Quinta-feira, Setembro 27, 2007

No fundo, tenho medo. Medo de te voltar a ver. Medo de que as minhas mãos voltem a ser mãos outra vez e disparem dos pulsos para te despentear o cabelo e apertar-te os nós dos dedos, entalando-te as falanges como se fosses criança a quem cuidasse de atravessar a rua. Medo de que o meu corpo se lembre da fome que te teve e se queixe ruidosamente, como um estômago vazio; de que me dês água na boca e que de deserto árido passes a fonte de trevas com neptunos sumptuosos e fundos forrados a desejos. Medo de pensar que não te vejo desde ontem e de por isso não te rever, saudosa, antes achando que nunca nos fomos e que ainda nos damos as mãos, algures por Paris. Medo de, afinal, te ter esquecido em vão e de que nos encontremos de novo a meio de inocuidades gentis, amorosamente gentis; e de que tenhamos, inesperadamente, muito cuidado com os gestos, como se contornássemos vidros partidos ou fios descarnados. Medo de dar com os teus olhos e de neles mergulhar de cabeça, de engolir pirulitos, nadar-te e por ti ficar, num boiar infinito. No fundo, tenho medo de que a mera possibilidade da tua presença me diminua a graça dos dias. Por isso me quedo.



(casablanca)

Sexta-feira, Setembro 07, 2007

A noite é uma flor carnívora que me atrai para o seu interior com línguas doces e telúricas, trazendo-me o recorte da tua sombra chinesa a dançar pelas esquinas e cantos esboucelados das paredes do quarto, num bailado que se acoita nas horas mortas. A noite ronrona baixinho e compõe uma geometria perfeita de enganos, oferecendo-me mãos cheias de possibilidades enquanto eu faço que acredito e me rebolo nas tessituras mornas dos lençóis, entornada de escuridão, arquejando pelo início do dia em explosões verosímeis de luz. À noite, arrepio caminho, papo léguas e devoro a distância entre nós até parecer que me tocam, os pelos que se te eriçam. É lá que às vezes morro e me transformo num fantasma de gesto lépido, seguindo-te os passos por corredores inventados. Há alturas em que me surges dos contornos da cordilheira de roupa atirada para o chão e do abandono de um sapato desemparelhado, volteado e caído qual naufrágio de um barco. Ris-te da minha volúpia de ombros tensos e virilhas molhadas e eu deixo. Porque a noite é uma mãe negligente, que tudo permite. É nela que me abro para ti como se me abandonasse ao chão sujo e desenhasse anjos na neve. E é nela que tu, com o peso de constelações inteiras, me entras certeiro, mesmo antes de a madrugada espreitar a gelosia entreaberta e começar a impor, às minhas pálpebras cerradas como uma casa devoluta, a realidade de todas as coisas.



(cat people)

Segunda-feira, Agosto 13, 2007

O mais estranho, é que gosto mesmo de ti. Gosto moderadamente dos amigos e tolero os colegas, a porteira, a empregada e o antunes do supermercado. Mas de ti, gosto mesmo. A tua lembrança é um prazer que desliza, surripiando-me; chegas de repente, agradável como uma brisa quente ou uma boa notícia, e eu imagino-nos cenários, não amorosos nem eróticos, mas, antes, de circunstância: encontros fortuitos, casuais, um pequeno-almoço, um relance de carro, um telefonema, uma gargalhada, um encontro de pulsos, de tornozelos. Faço-o sem qualquer expectativa romântica ou intuito amistoso: és menos do que um amante e mais do que um amigo. Não que me sejas mais próximo ou íntimo, porque não o és, mas porque, mesmo longínquo, me exaltas e entreténs, ocupando o meu espírito movediço e centrando-o, como a perspectiva de ir de férias ou de casar amanhã. Não me iludo, não é disso que se trata: apenas te construo em mim, uma e outra vez, como uma primeira dentada antecipando a gula, lenta e deliberada. Nunca o esmaecer do teu rosto me angustia, antes, enleva-me e inspira-me, soalheiro. Há momentos em que te conduzo para sítios bonitos de cartaz, como jardins secretos e praias desertas, e onde te vejo ao meu lado como se estivesses mesmo. Ali, entabulo conversas, contradigo-te e acotovelo-te, deixando que me faças cócegas e me olhes longamente, como os casais nas fotografias. Encontro-te no estame de uma flor, na caruma dos pinheiros e na linha do horizonte: basta-me olhar com atenção. E cheiras sempre bem: uma mistura de pólenes, resinas e maresias, da qual sobressai o travo adocicado do desejo, quieto como as nuvens mais altas. Acima de tudo, enterneces-me. E é esta perenidade mansa, que não reconhece o escavar do tempo, que não pede retorno e se basta em si mesma, que às vezes me inquieta e assusta, nem sei bem porquê.



(edward scissors hands)

Terça-feira, Agosto 07, 2007

Achas boa ideia, encontrarmo-nos? O que te faz pensar que, quando te vir, não te sitiarei a boca como a invencível armada, nem te rodearei por todos os lados, carregando sobre ti em formação tartaruga? Serás tão ingénuo ao ponto de creres que o passar do tempo me distraiu para sempre da assimetria da tua cara risonha e da desconjunção do teu corpo, mal arrumado nesse conjunto de fato e gravata? Não caias no erro de pensar que, com toda a certeza, o reencontro será fraterno e levemente saudoso, como uma consoada de parentes distantes, e que eu não te tomarei de assalto, ávida, guerreira, amazona pentesileia, fazendo-te meu prisioneiro para que me faças filhos e me caces o jantar, numa subjugação resignada. Não te fies, que muitos dias se atropelaram e correram, e eu trago em mim reentrâncias vazias como grutas de piratas, secos orifícios e ocos recantos que se me revelam no escuro, à boca da noite, quando me dispo de todas as cautelas. Pois sim que, entretanto, cuidámos dos nossos e abrigámo-nos da dor como da chuva ácida, mas é só eu querer e quando, à minha frente, inspirares fundo o ar que eu expiro (com aquela solenidade obscena de quem pondera o fim da vida na trave de uma ponte vazia), de pouco ou nada te valerá, bateres o olhar em retirada.




(four weddings and a funeral)

Terça-feira, Julho 31, 2007

Quando saíste, deixei de escrever. Quer dizer, escrever, escrevia, mas nada que me saísse das entranhas, então quietas como um bicho à escuta. Sabia que não lhes poderia mexer, às entranhas: sair-me-iam remoinhos de dor pela boca, às golfadas. Temi que a dor se infiltrasse ainda mais nas reentrâncias da própria dor, como se se comesse por dentro. Ter o que escrever, contradiria a minha vida de então, alimentada a restos de silêncios, a detritos de lembranças mudas. Costumavas chegar-me e, com um beijo distraído, soltavas as palavras que, aprisionadas nas minudências do dia, ansiavam por tal gesto: um gesto que lhes assegurasse a pertinência do amor. Depositado o beijo, e as palavras espreguiçavam-se, cinderelas despertas; respiravam, como um vinho velho depois de aberto. Não obstante a tendência que sempre tive para as calar fundo, por defeito e por feitio, trepavam-me, contrariavam-me, salmões subindo o rio na desova, e eu escrevia. Primorosa e conscienciosamente. Feliz, inventava histórias de amor com finais tristes e condoía-me. No fim, voltava para a cama e envolvia-te o ressonar com os braços mornos, confortada com a alteridade da ficção. Mas, aos poucos, a escrita deixou de me fluir fácil, predominante, eloquente, e passou a forçada, com hora certa, demarcada da escassez notória do beijo, cada vez menos distraído e mais compenetrado da sua condição de beijo. Por essa altura, já eu não dormia e caminhava por negras veredas, meio cega, perdida: um espectro dentro de um corpo, um sopro de vida, o reconhecimento apenas da fome. As palavras, deixei de as experimentar antes de as usar; de as provar, de lhes testar a síncope, pois tanto fazia, e, por fim, arrumei-as a um canto, como limpezas de Primavera. Saíste de casa e levaste-me o léxico, o talento, a vontade de lavar o cabelo e de conversar com deus. Um dia, muito mais tarde, ao correr da pena e ao virar da esquina, choquei com elas, velhas amigas que, inesperadas, se riam para mim (ou rir-se-iam de mim?), irrompendo-me no peito como o perfume de antigas namoradas.



(the muse)

Quinta-feira, Julho 26, 2007

Tenho, dentro de mim, muita gente que se atropela. Uns, irritam-se quando mastigas, estranham-te o ressonar, deitam fora a aliança; outros, mordiscam-te os dedos, bebem-te os fluidos e acompanham-te o ritmo das flatulências. Há-os cerimoniosos, dados às vénias, aos salamaleques e às hipocrisias da corte; e há os que te invadem sem aviso prévio, te roubam a escova de dentes, dormem com a tua almofada e ocupam-te o lado do sofá. De quando em vez, irrompe em mim a brigada do ódio, com as suas fauces lisas, sedentas de guerra, que acarretam silêncios e, a espaços, um ou dois canibais, que te provam os braços e te cozinham a língua. Quase em permanência, um desfile de tristes, eufóricos, felizes e de suicidas, com as suas expressões de redil vazio. Há, ainda, o psicopata assassino, que te amarra os pulsos, te corta às postas e te assa no espeto; e amantíssimas noivas de branco despidas e teor virginal, que alternam com varas de putas gastas, que te exigem uns trocos, te fazem um broche e cospem para o lado. Mais do que o amor, a raiva, o nojo, o tédio, a sobranceria e o riso, sinto por ti pena, uma enorme pena: por nos rodeares e jamais acertares; por atirares às cegas, fazeres contas de cabeça, tacteares no escuro. Por não nos saberes nem nos adivinhares.



(when a man loves a woman)

Terça-feira, Julho 17, 2007

Quem dera, fosse tão fácil, despir-me de ti como deste vestido, quando a areia da praia me namorisca os pés; substituir o teu dedilhar virtuoso pelo escorrer do bálsamo protector e pelas estradas de sal seco que se me desenham nas omoplatas, depois de sair da água. Quem dera, desligar-te, como ao telemóvel; retirar-te a bateria para que te não estragues, te gastes em vão, atirar-te para os fundos de uma gaveta qualquer, inábil, inútil, silente. Quem dera, fosse tão fácil, trancar-te as portas como as da casa, três voltas à chave, deixar-te às escuras, de gelosias corridas e vidros abertos; quem dera, seres tu, a imperceptível aragem à qual viro costas quando saio e não volto; seres as contas acertadas, a luz desligada, o carro na garagem, a mercearia fechada e a rua vazia. Quem dera, poder descartar-te, entregar-te à vizinha para que de ti tome conta, te dê de comer; deixar-te em dia, como ao trabalho atrasado, arrumar-te numa resma ao canto da mesa com a caneta por cima, perfeitamente alinhada com os lados das folhas, à espera do pó dos dias dos outros. Fechar-te para obras, guardar-te na parte de cima e esquecer-te, como camisolas de Inverno, e não te usar porque me arranhas a pele, me apertas o pescoço, me fazes suar. Quem dera. Mas não. Carrego-te comigo, como bagagem em excesso na volta de uma viagem, três ou quatro souvenirs imprestáveis, very tipical made in china, uma dúzia de postais ilustrados sem selo, uma máquina fotográfica avariada à chegada.



(shirley valentine)

Quinta-feira, Julho 12, 2007

Tenho um fraquinho por ti. Convidas-me para um café, pedes-me um conselho, que tal esta gravata, que chatice, o selo do carro, que giro o novo modelo e eu, um fraquinho por ti. Telefonas-me que não dormes, preocupado, amolgado, que porcaria de dia, o IRS, a multa, o escalão, o modelo, o formulário. Queres a bica bem cheia, o bife mal-passado e dispensas, displicente, a sobremesa cubista, enquanto eu me lambuzo e te sorvo, envergonhada, atenta, vidrada. Falas-me da família, da mulher que te controla, a chata, a querida, que te adivinha os humores e te descasca a fruta, redonda, pressurosa. Que te apareceu uma alergia e uma antiga namorada, mais os pneus carecas e a revisão atrasada, conheces alguma oficina. E eu que sim e um fraquinho, um fraquinho por ti. Que brilhantes banalidades, que importantes frivolidades. Uma áurea que te envolve como uma mortalha inspirada, o que dizes a parecer brilhante, dramático e engraçado, tens carradas de razão. Os olhos e os pulsos, tão estreitos e tão peludos, a pose arrufiada e a madeixa desarrumada. Um lanche, uma tarde, uma conversa banal, e eu esbugalhada, à beira de te levar a sério, e sai um baile de finalistas, um tiro no porta-aviões, os cinco do euromilhões, um solstício de Verão. Largas pérolas de sabedoria que sopras na minha boca, que abre e se arrasta, do centro até às bochechas, num riso quase devoto, fugaz e brincalhão, como um daqueles duendes que desarrumam as casas. Que gostas muito, muito dela, que és doido pelas crianças, as caraíbas e a eurodisney, que este ano é que vai ser, que maravilha, que homem amável, daqueles que não há mais, que grandezas vislumbro, nesta apologia sentida do entorno familiar, nesta pública devoção. E eu, fraquinha, fraquinha (fraquinha por ti).



(my best friend´s wedding)

Terça-feira, Junho 26, 2007

Exaspera-me, a estrita incumbência dos que vão chegando. É como entrar numa sala vazia, tendo o meu eco por agasalho. Depois da explosão de vida que me foste, os outros não passam de balanço estatístico, de contabilidade organizada, de um conjunto indistinto; na melhor das hipóteses, de um qualquer nome colectivo. Não te comparo: não foste melhor nem pior, não houve tempo. Mas é como se todos os que te seguiram fossem mulheres, crianças ou estátuas. Tu foste o gesto, a absoluta coincidência da perfeição do gesto. Foste o segundo que antecede a morte, o relance do meu nascimento, o resíduo do primeiro beijo, o resquício da dor de parto. Foste uma boa ideia que dava um filme, uma coreografia arrojada, uma música em estado de graça. Depois de ti, os outros não passam de uma desculpa esfarrapada, de verbos de encher os meus dias, tempo a mais que tenho entre mãos. Amo-os por bondade, como se me tivesse tornado freira, voluntária em África ou puta altruísta. Tamanho o buraco negro que escavaste em mim.



(bleu)

Sábado, Junho 16, 2007

Podia continuar assim para sempre. A escrever sobre o que não vivi, o que não tive, o que perdi: um tratado sobre o desencontro, a incompletude, o extemporâneo. Compêndios acerca do pouco, do raso, de como de um cesto se faz um cento e das tripas, coração. De como sou boa, em espremer o tutano, em, no meu colo vazio, rosas; de como me aprumei, em dos restos fazer um festim, roupa velha de amor desfiado, a criar factos perante argumentos, desmanchar e voltar a fazer, água mole em pedra dura. Podia continuar assim, bela eterna sem senão, um pássaro na mão, coração quente, amor para sempre, a palavras de prata, difíceis como bilros, sem silêncios de ouro. A acarinhar-te a lembrança a tratos de polé, com mil cuidados e caldos de galinha, amor querido, amor batido. Podia continuar assim para sempre. Afinal, há mil maneiras de morrer.



(the others)

Terça-feira, Junho 12, 2007

Vejo-te naquela névoa baixinha que enfeita os sonhos que abrem alas ao espavento da madrugada. Trazes contigo toda a vontade do mundo, avanças sem medo, corres na minha direcção como a parte pirosa de um filme, em câmara lenta, e desaguas um sorriso longitudinal no ar quase parado. Projectas para trás o penteado fora de moda, enquanto eu vacilo, algures entre a alteridade do espectador e o envolvimento da personagem. De pé à tua espera, carente, orgulhosa parada, não sei se triste se contente, porque não me vejo, apenas me percepciono. O dia, entretanto, a fazer-me olhinhos, namoradeiro, enquanto as persianas fechadas rangem com o calor súbito da manhã e se espreguiçam, alheias. Então, como num pesadelo de criança cuja mãe lhe foge, ultrapassas-me o olhar, expectante para com o que encontras para além de mim, por cima do ombro da minha vista. Eu a chamar-te e tu agora de costas, como se me tivesses atravessado um espectro. Viro-me para trás, a tempo de ter ver desaparecer as fraldas da camisa suada na esquina. Fico pregada ao chão. Tenho cinco anos e pregada ao chão. A minha mãe, que não me ouve; o elevador que cai e nunca se despenha. O meu corpo num ângulo estranho, desafiando as leis da gravidade, e eu a torcer a garganta, a espremer um grito, um alinhavo de som. Acordo e abençôo o dia, agradecida, aliviada: não por ter entretanto acordado, mas sim por tu não teres parado.



(existenZ)

Segunda-feira, Maio 28, 2007

És um tipo vulgar (e pensar que foste um deus). Tens pouca piada, até me custa a lembrar, o quanto me fazias rir, o coração descompassado e o formigueiro entre as pernas, um humor incendiário que me apetecia rasgar e devorar, num ímpeto pré-histórico. Quando bastava uma pilhéria, uma chalaça, uma laracha. O que escreves, lê-se. É assim mesmo: lê-se. Lê-se bem, como uma receita que queremos tentar, uma notícia de jornal, um anúncio, um letreiro de dentista, um sorriso ao canto da boca, de passagem. Mas pouco mais. Tempos houve em que te achei um quase génio da escrita mundana: vivo, provocador, uma invulgar destreza no entrelaçar de sentimentos proibidos, nos finais inesperados. Afinal, era apenas eu que não te esperava, que não te sabia assim, como és: vulgar, um tudo nada pretensioso, a exibires as letras como se um cachimbo ao canto da boca, um lencinho ao pescoço, um bigodinho cuidadosamente aparado, biqueiras reluzentes, o ego inseguro à espera do afago amoroso de terceiros. Apaixonada, imaginava-te um dom, e sonhava com a fatalidade de honrares a minha existência com o resto dos teus dias de excepção. Hoje, nem por nada quereria o óbvio tédio da tua vida, na minha. Excitava-me, então, a falta de pontuação, de maiúsculas, de vírgulas, de iniciativa, de um pouco de loucura. Uma roleta russa, perigosa, o jogo matreiro no qual descobria os teus significados ao virar de cada frase. Hoje, constato que és previsivelmente simpático, normal, um bocadinho entediante, até. Lamento, não te detesto, como decerto me preferirias: para mal dos teus pecadilhos, apenas me desinteressas. A cor dos teus olhos, afinal, não contém o mar, muito menos o céu: a cor dos teus olhos, não passa de uma composição genética de fortuito bom-gosto.



(l´amour en fuite)

Sexta-feira, Maio 18, 2007

Ponho-me a saia de ganga rasgada, a de que não gostas porque demasiado curta; invento-me loura natural, depilada, as unhas subitamente crescidas. Treino o olhar disponível, exagero o contorno dos olhos, repuxo as pestanas de preto e enrolo-as para fora, cor de cereja nos lábios. Espalho rubores pela cara, componho-me, numa pintura alegre e garrida. Inspiro o ar cá fora, emergindo de um longo mergulho, e percorro as ruas num passo rápido, urgente, como se o futuro estivesse ali mesmo ao virar da esquina, impaciente, à minha espera em horário útil, nem um segundo a mais; o futuro: um funcionário público com pressa de chegar a casa. Percorro as ruas com uma alegria inesperada e deixo que as gargalhadas me trepem, saguis pequenos e nervosos. Sigo o caminho a direito das domésticas, com os seus avios de supermercado, o passo errante das miúdas de liceu, com os umbigos e o riso à mostra; sigo os passos cautelosos dos velhos, com as suas hesitações e pausas para descanso, e o trilhar sonoro das empregadas de balcão, agarradas ao telemóvel, a contarem os trocos para o tabaco. Enquanto me ensaio e me descubro sem ti, sou a sombra feliz de toda a gente.



(sleeping with the enemy)

Quinta-feira, Maio 10, 2007

Que vergonha, agora, quando penso nos disparates confessados, nas juras de amor sôfregas, remoídas na solidão do quarto, as paredes a fazerem-te as vezes. Que vergonha,tantos despudor e promessas aos santinhos da minha devoção, para que te pusessem no meu caminho, para que não pudesses viver sem mim. Que tolice, tantos impropérios gritados em silêncio, as febres, a fome, o choro contido nos entremeios dos lençóis. Eu, amarrotada, como os lençóis. Que perda de tempo, a pedinchice desnecessária, a choraminguice, o beicinho inútil. A paixão é uma cegueira danada, uma solidão desmiolada, egoísta, absorta, desligada. A paixão afugenta o bom-senso, a razão e a bondade das coisas, de todas as coisas. Enquanto ilumina o outro como um vitral de igreja e o refracta para todos os lados, num bailado colorido, acinzenta e esbate as formas do que é importante. É injusta, mentirosa e supérflua. Mas, um dia, estranhamente, quando menos esperamos, o nosso eu adormecido, o capaz de amar mesmo algures alguém e muito, desperta do sono envenenado como a princesa de uma fábula; sacode dos ombros os restos do seu sonho moribundo e acorda para a vida verdadeira, para os caminhos sinuosos do Amor de Facto, aquele que sobrevive nos meandros entediantes das afecções diárias. A paixão é um rebate falso, uma promessa de nada, uma perda de tempo e de saúde, dez passos à retaguarda, cinco à caranguejo. Por isso, regozija-te: estou finalmente acesa para a vida e alegremente te digo, nunca saberás o que perdeste.



(everyone says i love you)

Sexta-feira, Maio 04, 2007

Ufa, que já cá não estás. Chorei-te pelo dia fora. Saíste-me suavemente, pela ponta da língua, dos dedos, dos cabelos. Esfumaste-te. Afinal, foi fácil, não tive de fazer nada. Escoei-te, apenas. Vieste agarrado a umas poucas de lágrimas, apanhaste boleia nelas, como se descesses uma onda, e escorreste pela minha cara até ao chão. Eu, a fungar e a limpar o ranho, e tu, a saíres-me aos poucos: primeiro um braço, depois o outro, a seguir as pernas, os pés, o sorriso, tu inteiro. Não sei que fenómeno físico se deu, que reacção química ocorreu, para que me desintoxicasse assim de ti, finalmente frívola, finalmente fútil. Escorreu-se-me a vontade de te rever, esqueci aquilo que ainda achava ter para te dizer; esgotaram-se-me as saudades que éramos suposto, um dia destes, matar, com horas de conversa fiada e vista para o rio. Hoje, pergunto-me como foi possível, ter durado tanto tempo, aquele estranho amor invertebrado, teimoso e atrevido; ter marinado, curtido, defumado, assim, dentro de mim. Agora sou livre, constato-o, sem esforço: não mais as pernas apertadas de desejo nas curvas traiçoeiras da noite. Afinal, foi fácil, não tive de fazer nada, apenas deixar o tempo e a distância, obreiros do desamor, trabalharem entre nós, cavando a dissolução dos contornos do outro. Ufa, que já cá não estás. Chorei-te. Não mais.



(the eternal sunshine of the spotless mind)

Quinta-feira, Abril 26, 2007

Preciso que me ajudes a esquecer-te, que ponhas mãos à obra, que faças qualquer coisa que se veja. Preciso que pegues no batente, que te esforces um bocadinho, que dês à manivela, que carregues no botão, porque é imperioso esquecer-te. Diz-me que sou feia, que estou velha, que sou tola; diz-me que é ridículo, este amor enganado, impossível, desnecessário, incómodo, que já dura muito para lá do que é aceitável. Atira-me com todo o desprezo que tens à cara, toma balanço, como se uma tarte de natas num filme mudo; deita-me a língua de fora, vira-me as costas, escarnece. Por favor, escarnece. Diz-me que sou absurda, desmesurada, desregulada, que não tens paciência, que estou doida. Encolhe os ombros com enfado, isso, assim. Repete que não me queres ver, ri-te, com pena, encharca-me de pena, olha-me como se eu um cachorro abandonado, que é o que sou. Enxota-me, repete, paternalmente, com asquerosa condescendência, que já não tenho idade, que são coisas de miúda, que devia ter juízo, que não tens tempo nem condições para atentares nos meus desejos vãos de louca varrida. Manda-me passear, bugiar, dar uma volta ao bilhar grande, ver se estás na esquina, que me dás um tiro. Diz-me que te maço, que não me queres por perto, que talvez uma providência cautelar. Manda-me correr para a esquina, que eu irei. Manda-me, que eu irei. Ajuda-me a esquecer-te, que não estou de todo preparada para te amar até ao fim dos meus dias, que grande chatice me foste arranjar, agora, resolve-a, faz qualquer coisa, ajuda-me a esquecer-te.



(meet joe black)

Domingo, Abril 22, 2007

O nosso tempo é no Inverno, não nesta promessa de estio e de cansaços estirados ao sol. Nós, é mais não nos darmos as mãos enluvadas, enquanto o calor se solta do corpo em espirais de desejo e embate como vapor na atmosfera gelada de Fevereiro. Nós, é os casacos apertados até cima, as golas levantadas e as pontas do nariz vermelhas, não sei se de frio, se de choro, se de vergonha ou pudor. O nosso tempo, não é o das praias de areia branca e águas cristalinas, nem o dos cocktails à discrição, como anuncia o folheto; muito menos o tempo em que a maresia se derrama sobre nós e o sol a pino nos invade a lassidão dos dias. É, antes, o tempo dos fios incertos de bafo quente que emanam das nossas bocas ansiosas, demasiado próximas, demasiado longe, e dos cachecóis que se enrolam no pescoço de cada um, como nos enrolávamos cerimoniosamente um no outro. Nós, é os corpos vestidos, as frieiras e bocas encieiradas, a uma generosa e conveniente distância. Por isso não a quero, à suavidade deste estio que se adianta, nem às carícias deste vento suão. Quero sustê-la, para que nunca me ultrapasse e me fuja, a lembrança dos teus olhos fechados, das tuas pálpebras caídas sobre as maçãs do meu rosto, afogueadas, dormentes de frio. Não quero esta promessa de férias: as tuas férias não são as minhas e não é tua, a minha praia. Quero ficar para sempre com a tua pele fria e arrepiada quase, quase na minha, sem teres por onde fugir. No fundo, quero apenas um truque de feira, uma magia barata, de cinco tostões, que me ajude a não te perder nunca.



(un coeur en hiver)

Domingo, Abril 08, 2007

Nunca me deixaram antes, sabes, fui eu sempre que fugi, trancas à porta, adeus que se faz tarde. Nunca me esqueceram primeiro nem nunca amei quem não me amou. Não é presunção, é questão de me fazer todo o sentido: o Amor é um encontro de vontades no espaço sideral, é um nó que flutua, solto, mas que não se desfaz enquanto as duas pontas não se desentrelaçarem em simultâneo. Como poderia amar-te se tu não me amasses de volta? Como poderia amar-te sem conhecer, compreender e aceitar os termos do teu Amor? Se apenas eu te quisesse, o meu querer seria a ponta solta de um cabo eléctrico à deriva numa poça de água, sem rumo, apenas à procura de fazer doer a alguém. Por isso acho estranho, continuar a chorar às escondidas por ti, quando, supostamente e de acordo com todas as regras do bom-senso e da boa vida, tu já nem te lembras que existo. Que sentido faria, encolher-me os joelhos como uma miúda acossada pelos mais velhos e remeter-me, triste, o rosto entre mãos, para o canto do recreio, se tu não recordasses ainda os traços que me compõem o rosto? Seguro de que não te amaria, se não viesses igualmente ao meu encontro, se não corresses algures na minha direcção. Nunca poderia ter continuado a dar-te colo, se me tivesses virado as costas, nunca poderia amar-te as costas, o teu encolher de ombros, esse gingar de ancas desacauteladas. Não entendes? Tens de estar à minha volta, a rondar-me a teimosia, para que eu ainda me lembre de ti. Tens de, por vezes (só por vezes, é o que basta), dormir comigo e de me fingires tua companhia ao almoço, para eu ainda te ter tanto carinho. Tenho de continuar presente na vontade das tuas mãos, na ponta dos teus dedos. Se eu ainda te amo é porque nos encontramos com frequência a meio caminho um do outro, sobre um lago gelado,um campo de trigo, uma estrada deserta. Ou no reflexo de uma chávena de café, no períneo da cidade morta.




(hable con ella)

Terça-feira, Abril 03, 2007

Beijos. De parabéns, de condolências, de bom trabalho, de boa viagem, de regresso a salvo e a casa. Beijos repenicados, como os da avó, melosos, como os da mãe, ou molhados, como os do primeiro namorado. Beijos apaixonados, beijos roubados, beijos de língua, à francesa, à esquimó. Beijos de missa, devotos, no pé de Jesus, beijos respeitosos, de filho, de aluno. Beijos de cinema, demorados, épicos, beijos para sempre. O beijo da mulher-aranha, o do vampiro, o de judas, o da serpente. Beijos fatais, beijos normais e beijos de adeus (de adeus e até nunca). Beijos soprados com uma mão, a outra a acenar, beijos de boas férias, beijos a fugir, que não há tempo para mais. Beijinhos de açucar, dos das mercearias, beijos amargos. Não me interessa de que tipo são, nem que nome lhes dás: quero-os, cobre-me com eles como se me cobrisses com uma capa rude de pastor no meio de uma serra fria. Nem um dedo à mostra, entendes?





(french kiss)

Segunda-feira, Março 19, 2007

Um ano. Um ano cheio de fins, em que todos os dias te esqueço. Um ano cansado de ouvidos e de dedos à escuta, na mira de um suspiro teu, de um relance foragido, de um sopro. Um ano repleto de palavras minhas e parco em palavras tuas, de memórias brumosas, como fantasmas de piratas no nevoeiro, sem rumo. Um ano de um querer solitário e a noção risível de quão patético é o amor de um lado só. Inevitável, avassalador, incumprido, no seu silêncio emparedado. Sempre a fingir que não é nada, que não foi nada. Caíram, entretanto, muitos factos sobre mim, coisas, chatices, conteúdos programáticos: encheram-me até cima, até toda eu ficar ocupada em trabalhos, até o meu último fio de cabelo ficar com a agenda preenchida. Não adiantou: um ano, dois anos, dez anos, nunca deixarei de pensar em ti, de te querer e de fazer caber um bom bocado de ti dentro de mim. Mas não to digo, nem pensar: não suportaria que me olhasses com a estranheza e a perplexidade dos indiferentes, como se olha um maluco desdentado que nos pedincha um cigarro na rua.



(oci ciornie)

Quarta-feira, Março 14, 2007

Só para que informar que este blogue está a ser descaradamente plagiado no seguinte endereço:

http://saroxmcp.blogspot.com/

Estão, obviamente, a ser tomadas as devidas medidas legais.

Sexta-feira, Março 09, 2007

Louvámos a praia até ao poente, nesse dia. O sol, passageiro clandestino, encarniçava-nos a gazeta, usurpada ao trabalho. Arranhavas-me por razões várias as pernas molhadas, fazendo com que os dedos dos meus pés se esticassem de prazer como os de uma bailarina em pontas e fossem deixando sulcos de limpa-areias ao fim do dia, na areia molhada, consoante te ias submergindo mais e mais em mim, um mapa batrimétrico entre as tuas pernas, e eu, cá dentro, uma rede de recifes de coral e grutas de uma anatomia simples, a encherem-se das tuas marés, a corroerem-se um século a cada nova enxurrada, eu, na vertical, a envelhecer debaixo de ti, um ser em camadas geológicas, corroídas pela paixão. As nossas sombras, mais estreitas a cada guinada do sol na direcção do nada, repetiam cada beijo enrolado em areia, cuspido no meu umbigo, a barriga, os braços, as virilhas, a tremerem de inveja das tuas explorações subterrâneas, tão meticulosas quanto trapalhonas. Foste tão pouco meu como o sol, na sua última curvatura roxa antes de desaparecer na linha do horizonte, uma linha que parecia desenhada por um miúdo a régua e esquadro lá longe, só para que soubéssemos que há coisas inultrapassáveis, como a pressão do oceano, as paredes de corais e os dias seguintes.



(from here to eternity)

Sábado, Fevereiro 24, 2007

Em vozes de sonho absurdo, dei por mim numa repartição vetusta que era de tudo, e também de beijos. Bati com força, de precisada que estava, mas nem um contrário de funcionário, portanto prestável e solícito, se dignou a receber-me cordialmente e a aparar–me o palato ferido. Aproveitei uma nesga e entrei, seguindo os trilhos dos casais felizes e dos desavindos, das heranças partilhadas, dos nascidos e dos morridos. Como em qualquer sonho imbecil, ninguém pareceu-me ver-me no afã daquela quimera absurda. Percorri com o olhar as centenas de tomos registrais que se alinhavam com seriedade numa prateleira de casquinha velha, esburacada pelo festim dos bichos, que faria um vistaço em qualquer cozinha moderna. Abri gavetas de onde saltaram usucapiões, cessões de quotas, aumentos do capital social, averbamentos de óbito, perfilhações. Procurei-te e aos teus beijos no meio deles, porque vos tenho importância de registo e de força pública, de tanto que foram para mim. Sempre achei que os baixos-relevos que trabalharas na minha boca teriam direito a laivos de nobreza, de heráldica amorosa, de leões, espadas, escudos e carinhos de garras afiadas. Lembrei-me de quando me vieste aos lábios, dos mordiscos passeados, dos contornos meus que a tua língua procurava, delimitando-me os lábios por dentro e por fora, dando-lhes forma como numa escultura. Foi então que percebi, com aquela presciência estranha que surge nos sonhos, que a marca dos teus beijos nos meus lábios, dos teus dedos nos meus ombros, era na verdade uma marca de água, muito leve, daquelas que mal se vêem mas impedem a cópia. Mesmo no dealbar do sonho, fiquei a saber que nada de teu em mim se repetirá.



(sweet november)

Quarta-feira, Janeiro 31, 2007

Olá, onde estás? Eu: Vou ao cinema. Não me perguntas com quem estou, com quem vou. Espero que o faças e o silêncio paira sobre nós como um albatroz contra o vento, ocupa espaço, incomoda. Da minha parte, porque imagino que não o queiras saber; da tua, porque achas que não tens o direito de mo perguntar. Imagino que estejas acompanhada, mas claro que isso não é nada comigo… Eu, surprendida pela suposição, a marear pelas ondas da desconversa, à procura, no horizonte das palavras difíceis, pela pergunta que gostaria de ter ouvido. Que pena, que não te aches no direito de perguntar, digo, significa que o inverso também é verdadeiro: que não me achas no direito de TO perguntar. (com quem estás, de onde vens, para onde vais). Mas podes perguntar com quem estou que eu respondo, não te tenho segredos. Ele, Não, deixa lá, diverte-te. Hesito. Fica sabendo que estou comigo mesma: sozinha (estúpida, não podias tê-lo deixado na dúvida?). Pois olha que não parece, soas a comprometida. (não é bem isso, é mais à toa, por ver que tudo continua na mesma, que nada acrescentámos ao tempo.Que continuamos a levar em braços uma relação tísica que agoniza numa cama de sanatório e que se sente cada vez mais fraca, com tantos actos falhados e repetições de falas; com a monotonia do repertório e as reposições mal encenadas de um vaudeville a cheirar a ranço; com os retalhos rasgados de comédias de enganos e os segredinhos de alcova embrulhados nas costuras dos nossos hiperactivos cérebros. Com tantos silêncios ampliados pelo megafone do orgulho (ou será do omnipresente medo da perda?). Quando bastava dizermo-nos, com ambas as vozes no exacto registo, nem muito alto nem muito baixo, que nos amamos perdidamente e que, sim, que queremos saber a que horas o outro vai ao pão.



(the remains of the day)

Terça-feira, Janeiro 23, 2007

Nesta fotografia estamos os dois, sim, mas, se é certo que foste tu que a tiraste e que a mandaste revelar, eu escolhi a moldura, por isso não a levas. Porque é moldura da grossa, pesada, com umas rosinhas trabalhadas no pinho, muito digna de, então, nos emoldurar; uma moldura daquelas maciças que afirmam coisas, que marcam posições, não das fininhas sem espaço para as margens, que acabam logo ali, deixando os sujeitos à beira de um precipício; gosto das que deixam adivinhar mais e mais bocados de movimento, de gestos, de paisagem. Como esta. Olha-a bem. Foi tirada quando a nossa vida ainda transbordava de hipóteses e se nos abria pela frente como um quantos-queres. Está bem, já dissemos, foste tu que a tiraste, que ajustaste o zoom e o temporizador para captar a nota certa e o momento exacto algures na partitura daquele beijo agora irrepetível. Mas não (lamento) não a levas nem emprestada, não podes escaneá-la, copiá-la, nem sequer guardá-la na memória para reprodução futura. Não tens direito algum ao vórtice perfeito daquele beijo enregelado, plasmado na lombada montanhosa da rectaguarda, nem ao calor da minha mão direita, que tacteava com murmúrios de cego o interior do teu bolso traseiro. Porque são meus, e não teus, os olhos fechados de futuros entreabertos e esta boca em espera, reflectida no teu olhar atento ao momento do disparo, cuidando da posição da luz. Por acaso a máquina era tua, bem como o foi a ideia do romântico enquadramento. Mas tal só te dá o direito à penúria do sol de Inverno que na altura tentava romper os recortes pontiagudos da cordilheira de fundo, numa brincadeira de crianças, infrutífera. Nada que se compare com a seriedade que me invadiu (repara) enquanto me preparava para te abocanhar a desatenção, nem com a importância de estado da minha mão a rebuscar-te os fundilhos das calças. Podes também ficar com as figuras de fundo, as sombras de dois ou três passeantes indiferentes, a meia dúzia de abetos à esquerda da imagem e da cabana ao longe que, afinal, nunca nos abrigou de nós mesmos. Mas nunca o meu infinito abandono, na direcção da tua boca distraída por um click, adornará uma outra parede que não esta.


(the war of the roses)

Sábado, Janeiro 06, 2007

Voltaste e és o mesmo, mas também outro. Reconheço-te o valsar do sorriso rasteiro, quase as mesmas brancas, os mesmos vales obscuros onde mergulham umas olheiras azuis, e talvez uma ou outra ruga a mais. Mas és outro.Como se num filme de extra-terrestres, forças alienígenas atravessassem o teu olhar meio vazio, que pressinto dominado por outros mundos. Ou se calhar sou só eu, mais distorcida, magoada, engelhada, chocalhada, que quero cantar-te o regresso mas não consigo. Que quero anunciar-me na tua pele com pompa e circunstância mas falha-se-me o entusiasmo. Amamo-nos com os mesmos gestos gentis que nos arrebatam, é certo, e tu continuas a pôr-me o cabelo para trás da orelha quando me sento em ti, de frente, as pernas abertas, o meu rosto inseguro abandonado ao teu hálito. Mas quem és, afinal? Um estranho de três olhos, braços no lugar de pernas, cabeça nos pés, como um quadro abstracto. Uma vogal arrependida dos sons abertos que me rasgavam a carne e a apatia, em tempos. Na pior das hipóteses mudámos os dois, e hoje somos apenas estranhos que se espreguiçam no conforto de fingirem que ainda se querem. Não devemos insistir nos rituais que nos eram familiares, sabes?, nem nos gestos habituais que não reconhecemos sinceros e que acabarão por se virar contra nós. Não me importo que venhas diferen